Em
Decoração e Arquitetura de Interiores
Luxo atual
Por
Durante uma viagem, tive vários "
flashes" de aspectos variados do luxo em alguns lugares por onde passei. Fiquei pensando um pouco sobre o que é este substantivo cobiçado por muitos, alcançado por poucos e até mesmo visto com desdém por alguns. Atualmente muitos "conceitos de luxo" vêm sendo dados por diversas celebridades da moda, do design, das artes em geral. E, além disso, no meio em que atuo, luxo é um atributo a ser, pelo menos, avaliado.

Espaço, beleza, calma e conforto: aspectos do luxo atual
Devo deixar claro que foi difícil escrever este texto, tendo em vista que falar sabre o luxo leva a inúmeras implicações, incluindo aquelas de ordem social. Num mundo onde a maioria não tem o básico para viver, muitos condenam quem "vive no luxo" ou quem "se preocupa com isso" pura e simplesmente, sem ao menos refletir que, quem usufrui do luxo pode contribuir com a redução das diferenças sociais. Afinal, não se pode dizer que uma vida luxuosa seja atingida sem recursos financeiros: isso é uma verdade incontestável, mas que pode ser "manejada" de forma a ajudar a quem precisa.
Em primeiro lugar, creio que é preciso desfazer alguma confusão sobre a palavra em si. Muitos confundem luxo com ostentação, e muitas vezes com exibição e excessos, o que foi verdade no passado. Outros acreditam que luxo seja sinônimo de elegância, charme e sofisticação, mas, a meu ver, luxo não se confunde com estas qualidades, pelo menos no tocante ao design de interiores: são inúmeros os ambientes onde se pode encontrar elegância e charme de forma bem simples, e também sofisticação, sem luxo. Acredito que o inverso também seja possível, ou seja, um espaço luxuoso e pouco elegante, ou luxuoso sem sofisticação. Às vezes acontece, pois o luxo não é uma qualidade intrínseca de nada, nem está ligado a qualquer estilo, é bom deixar claro. Luxo é um degrau a mais, um cuidado a mais, um refinamento a mais. E é muito, muito fugaz.
Há uma definição para luxo com a qual concordo: a "qualidade de tudo aquilo que é raro, exclusivo, e às vezes, inusitado". Se olharmos para o passado vamos identificar que tudo de mais raro e exclusivo que existia, se encontravam nos palácios da realeza européia. Mas isto faz tempo, e as brutais mudanças pelas quais o mundo passou já não nos permitem mais identificar o luxo de hoje em dia com estes lugares. As tremendas transformações nos valores da vida humana que ocorreram no ocidente desde então, e as modificações culturais incrivelmente rápidas pela quais passamos no momento, também afetam o conceito de forma inevitável. E é bom registrar também que o que é luxo aqui e agora muda muito rápido, e o que é luxo em um lugar às vezes não é o mesmo num outro lugar.

O luxo de ter poucos móveis e bastante espaço para circular
De forma bem simplificada, o que podemos qualificar como sendo "raro" no estilo de vida da maior parte da população na atualidade? Uma das coisas é o
tempo. Do jeito que levamos nossa vida, quem tem tempo para si mesmo, para nada, para tudo? Raras as pessoas... Outra coisa muito escassa nos dias de hoje - principalmente nas grandes cidades - é o
espaço. Olhe a sua volta e verifique a quantidade de veículos, pessoas e até de barracas de praia tentando aproveitar um domingo de sol: certamente, quem tem um pouco de espaço dispõe de certo luxo.
Pois uma das características do luxo atual está justamente em usufruir de determinados privilégios que na verdade não podem ser comprados, mas sim conquistados. Muitos filósofos e estudiosos de tendências já apontam neste sentido e algumas pessoas já perceberam também o valor de coisas intangíveis, mas de importância fundamental em nossas vidas. Outra característica deste novo luxo é passar por algo que antes era considerado um "anti-luxo": o
despojamento. Despojar-se de algumas coisas em benefício de uma maior
qualidade de vida, é um grande luxo: trabalhar menos para ficar mais tempo com os filhos, para ter um hobby, para visitar uma exposição. Abrir mão de móveis e mais móveis para poder circular sem esbarrar em nada, observar bem as peças que se possui, deitar no chão simplesmente. Essas coisas simples estão sendo elevadas à categoria de luxo tendo em vista sua escassez e raridade.
No entanto, numa época onde o culto a imagem é quase uma "religião", quando "celebridades" são criadas e destruídas de um dia para outro, é difícil para quem não tem o hábito de refletir sobre a vida e sobre o mundo, perceber que o que é raro e exclusivo na verdade é a discrição, o comedimento, a paz de espírito. E que, portanto, voltando ao aspecto "casa", uma residência luxuosa na verdade tem "menos". Baseado numa frase que li certa vez - "o luxo se encontra no silêncio" - uma casa luxuosa tem mais "silêncios", mais espaço, mais "tempo" que outras, mais preocupadas em "mostrar" do que em se manter reservadas.
Esta idéia de luxo tem muito a ver com o famoso "
less is more", que muitos já contestaram. O minimalismo nem sempre é sinal de luxo, pois pode ser também um sinal de pouca imaginação. Mas mesmo assim, penso que o luxo atual passa mais por valorizar algumas peças, preferencialmente as consagradas, do que acumular muitas delas. E quais peças têm este "valor", esta consagração? Entendo que não sejam simplesmente as de valor monetário mais alto, mas sim as que têm alguma história, um passado, um conceito.
Há coisas que têm um peso que já as fazem "um luxo" em si mesmas, e aí cito algumas peças de casa que, para mim, entram nesta categoria: uma cadeira de Joaquim Tenreiro; Uma escultura da serie "Bichos", de Lygia Clark; Uma mesa de centro Noguchi; Uma banheira com espaço ao redor; Uma bela piscina. Peças como estas são indicadoras de luxo, ainda que, sozinhas, não digam nada a respeito de uma casa, mas, se bem coordenadas, podem sim denotar que, para alem de cultura para se reconhecer estes "pequenos luxos", o bom gosto mora nesta residência.

O despojamento como atributo do luxo
Há também a questão das marcas. Existe uma série delas que podem indicar o luxo, mas vejo que, cada vez mais este aspecto torna-se pouco relevante. Há muitos que entendem que o luxo se resume a exibir um "objeto de luxo", o que não é verdade. No luxo atual, mais vale conhecer e reconhecer o porquê de uma grife ter alcançado uma distinção frente as suas concorrentes que apenas exibí-la. Em geral, estes nomes têm uma historia por trás, pois seus produtos são fabricados cercados por cuidados e com vários atributos que são difíceis de serem atingidos por qualquer empresa: qualidade, design, beleza, refinamento, conforto, requinte, pós-atendimento, tecnologia. É um verdadeiro conjunto de adjetivos que são conquistados com o tempo, e não simplesmente forjados pela publicidade. Seus consumidores as escolhem porque elas Ihes prestam um "serviço" sem igual, e eles sabem qual é.
Entendo que o luxo dos dias de hoje se esconde justamente em pequenos detalhes e conceitos, muitas vezes bastante abstratos, muitas vezes difíceis de serem compreendidos, e por vezes até desconhecidos da maioria das pessoas. Alguns deles vêm, aos poucos, se mostrando a quem está atento as mudanças pelas quais todos passamos. E certamente tem a ver mais com o "
ser" do que com o "
ter".
Você conhece o "Curso a distancia IBDA - SitEscola? Veja os cursos disponíveis, e colabore com o IBDA, participando, divulgando e sugerindo novos temas.![]()

Mais artigos sobre este mesmo tema:

Comentários dos leitores:
|
Nenhum comentário até o momento. Seja o primeiro a comentar este artigo! |
• Se você já se cadastrou no site, basta fornecer seu nome e senha.
• Caso ainda não tenha se cadastrado basta clicar .

Indique esse texto: