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por Eng. Manoel Henrique Campos Botelho

Sobre uma certa Tabela de Traços de Concreto



Um colega nosso, com as melhores das intenções, anexou ao seu email uma tabela de traços de concreto e declarou que copiou de um site e não sabe a origem dessa tabela. Vamos contar a historia dessa “Tabela”. Aproveitemos para fazer uma viagem sobre a história da tecnologia do concreto no Brasil.
Estamos nos anos 40 e vigora a NB-1 para projeto e obras de concreto armado. Nessa norma recomenda-se para dosar concreto o uso da “dosagem racional”, tolerando o uso da “dosagem empírica” só para obras de “pequena importância” (sic) em seu item 63. Só que nesses tempos, em São Paulo, só o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas, renomado centro técnico) fazia essa dosagem racional, ou seja: a partir da areia, agregado graúdo e marca do cimento dosar o concreto para obter a resistência desejada.

Quanto ao “slump” (abatimento) a norma nada diz. Quem podia fazer a dosagem racional? Só as grandes obras como barragens e pontes. O resto, ou seja 99% das obras, não faziam dosagem racional alguma. Se não faziam dosagem em laboratório, como dosar as proporções de areia, pedra, cimento e água? Usa-se o método boca a boca, a repetição de experiências (louvável mas pouco crítica), a experiência do engenheiro de obra (?), a opinião do mestre de obra (?) ou o chute.

É a época da opinião pessoal. Também como raramente se extraíam corpos de prova para verificar a resistência obtida, tudo ficava como estava. Só nos anos 50/60 surge na cidade de São Paulo, na Escola de Engenharia Mackenzie, um outro laboratório de controle de qualidade de concreto. Também nos anos 60 um apaixonado de nome Falcão Bauer abre uma firma de qualidade que se tornou famosa.

Nos anos 60 este autor fez estágio no IPT, no departamento de tecnologia de concreto, e somente as obras de barragem do governo e a obra do Museu de Arte de São Paulo (na Avenida Paulista) tinham acompanhamento do IPT em relação à qualidade do concreto. E as obras pequenas e médias? Nada ou quase nada. Em algumas fazia-se a retirada esparsa de corpos de prova mas se usava muito a esclerometria, técnica que este autor muito acredita e que merece uma crônica pela sua importância filosófica básica.

Mas quem é bom engenheiro e deseja fazer boas obras de porte pequeno ou médio, como os prédios de apartamentos. Como fazer ??????

utor as lança sempre igual mas com várias apresentações. O sucesso é tanto que o autor as lança também como uma régua de calculo cilíndrica, fabricada em papelão , mas sempre com a mesma informação de traços, consumos e estimativas de resistência média do concreto a 28 dias, ou seja, o atual fc28.

Se para alguns essas tabelas eram um bálsamo, um maná que caia dos céus e começaram a usar tão logo as tinham em mãos outros a criticavam cruelmente. Nos anos 60 (formei-me no ano de 65) as críticas eram :
• Tabelas superadas,
• Tabelas regionais, quase locais levando em conta a areia e a pedra da cidade,
• O cimento considerado não é mais fabricado,
• Outras criticas, muitas críticas.

Esses críticos implacáveis o que sugeriam para as obras pequenas e médias? Fazer a Dosagem Racional, de custo alto e só possível perto dos grandes centros.

Alguns projetistas de estruturas só tinham aceitos seus projetos se colocassem no desenho de forma o traço a usar. Mas como propor um traço para uma obra que não se conhecia o cimento, a areia e as pedras? Por cautela mandava-se na obra analisar (?) esse traço. Uma maneira talvez de fugir do problema.

Na firma em que eu trabalhava no final dos anos 60, uma firma de engenharia de saneamento, apareceu um exemplar da tabela e, na época, o fenômeno xerox ainda não tinha surgido. Como não havia como reproduzir por xerox a tabela foi chamado o chefe dos desenhistas e a tabela , sem citar o autor como é regra, foi copiada a nanquim num papel vegetal e tiraram se cópias no papel químico (heliográfico) que viraram, para cada recebedor dessa tabela, objeto sagrado.

Eis que surge a NB-1 /78 e que dá a mesma orientação anterior. Para obras de maior vulto a chamada dosagem experimental (o mesmo de dosagem racional) e para as outras exige-se um mínimo de teor de cimento e o mínimo de água de mistura. As tabelas do engenheiro carioca continuavam ser usadas, agora multiplicadas legal ou ilegalmente pelo fenômeno xerox que com o tempo se barateou tanto que até pobre tira xerox...

O diabo é que as xerox foram as vezes tiradas de velhas cópias heliográficas sem o nome do autor e viraram tabelas de traço sem autor definido ou pior, de autor desconhecido.
É hora de corrigir isso. As Tabelas de Traço de Concreto tem autoria e de autor muito conhecido tanto que seu nome nos anos 80/90 foi justamente homenageado pelo Ibracon pela sua enorme contribuição para o ensino e popularização da tecnologia do concreto.

Depois desse autor o Eng. Gildásio da Silva também publicou sua tabela com base em suas experiências, somando portanto informações ao divulgado pelo engenheiro carioca. O Eng. Marcelo Morais, de Brasília, em seu livro, seguiu os passos do engenheiro carioca e publicou as suas tabelas com as características da areia e dos agregados de Brasília.

Um colega de nome Nicolau declarou-me, anos sessenta, as duas coisas que um engenheiro civil devia fazer ao terminar seu curso. Registrar-se no CREA e ir comprar a tabela de traços do engenheiro carioca pois no curso da nossa escola de engenharia era proibido falar nessas “tabelinhas de concreto”. A forma de falar era:
“aqui na escola nós ensinamos a verdade, na obra vocês usam essa tabelinha que o pessoa de obra acredita ......”

Estamos chegando ao fim desta historia sobre a Tabela de Traços de Concreto. Vamos ao nome do autor : Engenheiro Abílio de Azevedo Caldas Branco.

No meu tempo de engenheiro jovem a tabela chamava-se Tabela do Caldas Branco.
A ele que procurou, desde os anos 30, difundir conhecimentos, a minha homenagem.
Teste de verificação: se a tabela sem origem que você tem em mãos começa com o traço volumétrico 1:1:2 e termina com 1:4:8 há enormes possibilidades de ser ela a Tabela do Eng. Caldas Branco.

Texto publicado sob permissão do autor:

Manoel Henrique Campos Botelho
Eng. Civil e autor do livro Concreto Armado Eu Te Amo
Email: manoelbotelho@terra.com.br
Cx. Postal 12.966 -- CEP 04009-970 -- S.Paulo SP

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