Ao contrário do que muitos pensam, existe uma espécie de limite, uma área de sombra nas organizações, que parece determinar os caminhos da empregabilidade. Ela fica bem ali, no cruzamento do foco em resultados com a otimização de
processos e nutre silenciosa aversão pelos elementos considerados “fora da faixa mais produtiva”.
Esta fronteira é um litoral entrecortado, cheio de margens interpretativas, onde o imponderável está presente e as palavras são pardas. Não é bem um lugar, mas um conjunto de crenças e práticas. A regra velada e geral, destes dias secos, tem sido não manter no time, quem ultrapassar determinadas barreiras, especialmente as da idade. Por esse perfil, mormente iniciando aos 25 e indo até a faixa dos 40, define-se o quociente ideal de desempenho, competências, acesso e manutenção na função.
Vejam só a ironia.Uma vez que a essência do tempo é passar, todos, um dia, adquirirão uma somatória de competências para entender profundamente os processos da empresa.
Enfim, estariam bem integrados e aí mora o perigo das estratégias de adaptação. Aos mais jovens, a recusa se explica pela falta de vivência prática e na outra ponta, porque os mais experientes são aqueles que se recordam das concessões efetuadas para a companhia e conhecem os erros da operação.
Em todo caso, é preciso estar preparado para navegar nesta fronteira hostil, pois até os sites especializados em empregos, pedem para você tirar a idade do currículo.
Mas, estamos no final de ano, tempo de reflexão. Então vai aí um velho aviso aos navegantes: ter 40 anos não é mensurável, não é um artigo que se precifica e depois se joga na prateleira dos fundos do mercado de trabalho.
Aliás, dá para calcular o valor real do tempo necessário até que a combinação
entre prudência e justiça, permita ao profissional desempenhar sua melhor década produtiva? Qual seria o preço se tivéssemos que adquirir por aí, confiança, compromisso e qualidade técnica, em patamares de excelência?
Alguma coisa não faz sentido. Imagine este time, Michelângelo, Beethoven, Schiller, Emerson e Bell; Einstein, Chateaubriand, Churchill, Bento Prado Jr e Gandhi; Sabin, Spock, Mário Quintana, Zilda Arns, Zélia Gatai, Lígia
Fagundes Telles, Helena Meirelles, Irmã Dulce, Madre Tereza... E se todos estes e muitos outros, fossem aposentados aos 40?
Quer dizer, desestimulados ou impedidos, por qualquer maneira, de
trabalharem, falarem, sentirem e agirem com propriedade. Se lhes negássemos a legitimidade, o que ocorreria? Imagino que, no mínimo, não teríamos Ode à Alegria, nem a capela Sistina.
Afinal, quem precisa da relatividade, filosofia, mapeamento de genoma, computadores, constituições, naves espaciais, redes e tudo aquilo que hoje está nos fundamentos de nossa sociedade e cultura? Seria uma vida mais cínica e pobre. Estaríamos mergulhados na monotonia dos indicadores estatísticos.
No mundo real, as histórias são outras. Eloqüentes em seu anonimato, pois o que há de melhor em uma existência é a lucidez dada pela maturidade. Você conheceu a Dna. Jacy? Não? Eu tive o privilégio de vê-la, inúmeras vezes, passando com seu carrinho de feira. Ela ia, ladeira acima, tomar o metrô para chegar a R. 25 de Março, e lá enfrentava uma multidão para fazer as compras, que
depois distribuía aos necessitados. O mesmo carrinho que ela, aos 90 anos, também usava para tocar nas casas do bairro, angariando doações para muitas famílias e empurrava com tecidos até os cursos de corte e costura que mantinha para as adolescentes grávidas e mães solteiras.
Deveríamos tê-la parado aos 40? O que você acha? Tem idéia de quantas lágrimas puderam ser evitadas e do teor da dignidade que foi restituída? Medimos este godwill? Os exemplos desta riqueza, não param por aí.
O reitor da universidade onde trabalho, no esplendor de seus cabelos brancos, ainda mantém o vigor físico e a estatura intelectual que o dignificaram em sua vida pública. Nesta semana mesmo, recebi uma aula magna de comportamento empreendedor, em nossa reunião de rotina. Não trabalhem somente por salário, dizia-nos, mas, para construir uma carreira. Com certeza, alguém estará
olhando para você e mesmo se, por ora, não os houver, suas realizações irão despertar a atenção para suas qualidades e, então virá a oportunidade.
Este homem que ensinava, chegou ao topo depois das quatro décadas: elas foram necessárias para formá-lo! E ele não parou por aí, pois sua vontade era realizadora e a excelência decorria justamente de sua perseverança, conhecimento, experiência e visão de contexto.
Para os gregos, 40 anos era a idade do florescimento, tempo áureo da vida, de onde era possível emergir o melhor de si. Havia todo um percurso que garantia a qualidade do oferecimento. Mas, para os latinos parece ser a idade da estupidez, da galhofa, da demissão, da velhice. Como vimos, há
muito que fazer na luta contra a mediocridade, o desperdício de recursos e talentos.
Precisamos desmontar mecanismos decisórios que desconsideram o valor da experiência, pois indicam a leviandade da gestão e a obtusidade do modelo adotado. O trabalho realizador deve ser priorizado.Estamos no âmago da transição que desenhará o mundo e indicará quais caminhos nos serão
possíveis.
Tecnicamente, não é uma crise econômica ou produtiva, mas uma crise ética. Porque a gritaria, se até setembro só havia superávits sucessivos? O que está por trás dos pungentes pedidos de "pacotes salvadores" e das ameaças de "recessão"? Por que a modelagem de salvaguardas não
funcionou?
A catástrofe especulativa que detonou os sorrisos e os mecanismos de financiamento, e aparecendo de “surpresa” no horizonte de eventos, nos obriga a reavaliar o que estamos fazendo, ao cultuar o bezerro de ouro do "foco em resultados imediatos" e das margens cumulativas. O
problema é mais de competências para gerir o custeio, do que outra coisa.
A farra da ostentação foi grande, mas agora acabou. Sobra a conta. Para enfrentar isso, segue o antídoto: Sustentabilidade é igual a excelência e a estratégia deve ter uma visão 360º sobre a multiplicidade.
Naturalmente, devemos também responder a outras questões, relacionadas à trajetória profissional, em termos de capacitação e comprometimento, ou seja: Pesquiso, inovo, realizo, reciclo ou apenas busco ampliar processos e garantir áreas de conforto? Cuidado, pois aqui é o pulo do gato!
As últimas duas gerações foram ensinadas a não chegar lá. Nunca faltará mercado para quem é muito bom naquilo que faz. O que você quer ser quando crescer?
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