
Esta área é supervisionada pelo Engº Mauro Hernandez Lozano e sua empresa,
a Dýnamis Engenharia Geotécnica (www.dynamisbr.com.br) que
há mais de 18 anos vem se especializando em soluções de geotecnia em busca de alternativas seguras e econômicas.

Recordo-me que dos meus primeiros anos como formado, lá pelos fins da década de 70, quando já tinha os recalques presentess como objeto de atenção e quantificação em projetos de geotecnia para obras sanitárias de escavação de valas. Então porque atualmente este problema tem gerado tantas controvérsias na sociedade?
O fato, a nosso ver, é que não têm se dado à devida atenção a esta questão, talvez face às “dificuldades” de um diagnóstico geotécnico adequado. É fato que existem dificuldades, entretanto elas são socialmente inerentes à responsabilidade dos profissionais encarregados, ou seja, para verificar a existência da possibilidade de recalques, provenientes do rebaixamento do lençol freático, o engenheiro civil geotécnico deve inicialmente conhecer as diferentes camadas, espessuras, distribuição e comportamento dos diversos solos afetados pelo provável ou possível rebaixamento do lençol freático.
Para tanto, é obrigatório fazer sondagem na região do entorno da futura escavação e na área a ser afetada por tal rebaixamento, a qual poder-se-ia denominar de “área” ou “raio de influência” ou, ainda, “cone de depressão do lençol freático”. Caberia ao engenheiro geotécnico encomendar tais investigações, estimar as diferentes camadas existentes sob a influência da depressão do lençol freático e estimar a variação de pressão de água nos vazios dos solos.
Temos aqui, dois grandes problemas, que são raramente contingenciados em projetos de obras de escavação urbanas, ou melhor, em obras de subsolos de prédios.
1 -- Criou-se uma cultura de não aplicação das técnicas “já conhecidas” porém não aplicadas, caindo-se no “desconhecimento” esta tecnologia.
2 -- Poder-se-ia também entender que seriam as dificuldades de executar as sondagens fora do local da obra que dificultam a avaliação do subsolo.
Os dois fatores somados, acabaram criando o costume, cultura, ou inadequação do que se faz atualmente, isto é, realizar as investigações apenas no terreno objeto da obra, não se fazendo sondagens nos vizinhos e ou nas ruas próximas.
Esta “precariedade”, caso se possa assim dizer, também afeta, a nosso ver, o desenho das contenções. Para sua realização, projetando-se o conhecimento das camadas dos solos da área da obra para fora dela, o que se sabe não ser uma realidade.
Poder-se-ia se justificar este procedimento pela impossibilidade prática e econômica de fazer sondagens fora da área da obra. Poderia responder que se trata, sim, de uma “dificuldade” mas que, culturalmente, foi aceita como “impossibilidade” mas, na verdade é um mito que se criou. Dever-se-ia sim investigar melhor esta região do entorno da obra de escavação, quando o efeito do rebaixamento do lençol freático for possível de ocorrer.
A importância do lençol freático
Outro grande problema está na estimativa da pressão de água nos vazios dos solos, que é obtida a partir da rede de fluxo formada pela percolação de água no subsolo proveniente a existência de um lençol freático, e da escavação a ser executada. Esta demanda (rede de fluxo) está atrelada à determinação do comportamento dos solos, em face da percolação de água.
Mais especificamente, o engenheiro civil geotécnico deveria programar ensaios de permeabilidade dos solos ao longo de tais camadas existentes nos subsolos. Estes ensaios podem ser feitos nos furos de sondagem ou através da obtenção de amostras indeformadas dos solos e a subsequente realização de ensaios de laboratório.
Como expressado acima, não se tem conhecimento deste tipo de procedimento nos casos objeto deste artigo, ou seja, obras de edificações com subsolos. Creio que que seja muito rara esta prática, porém é sobejamente conhecida no meio geotécnico e utilizada em outros tipos de obras de escavação abaixo do lençol freático.
Assim, também não cabe o termo dizer que “não seria possível realizar tais ensaios e sondagens” mas, sim que sua prática não é contingenciada por razões de “dificuldades econômicas”. Entende-se que, tecnicamente, é obrigatório o uso destas técnicas para que a sociedade não padeça com mais este ônus causado pelo poder econômico e político ou pela incompetência da engenharia brasileira.
Realizada estas investigações geotécnicas segue-se o estudo com a realização de ensaios de adensamento em amostras provenientes das camadas envolvidas no processo, que irão permitir a quantificação da compressibilidade destas camadas do solo.
Ressalta-se também um fator muito curioso, se não importante: o rebaixamento do lençol freático causado em regiões que recebiam uma determinada contribuição das chuvas e que por uma ocupação intensa e abertura de ruas seguidas por pavimentação e drenagem superficial impedem a infiltração de água no subsolo e, conseqüentemente, acarretam a depressão do lençol freático. Este é um fator histórico, pois se dá ao longo deste processo de ocupação e impermeabilização, que pode se adicionar aos provenientes das obras de escavação.
Também se deve destacar que a depressão do lençol freático depende do tempo em que o sistema de rebaixamento, utilizado para propiciar a escavação dos subsolos, e ou do bombeamento que é realizado no fundo das escavações esteja em funcionamento.
Explicando melhor, para viabilizar a escavação de subsolos abaixo do nível de água, muitas vezes utiliza-se de algum sistema de rebaixamento do nível d’água (em solos mais permeáveis). Outras vezes o rebaixamento se faz naturalmente com as escavações (solos de baixa permeabilidade), neste caso executa-se apenas o bombeamento no fundo da cava.
Também há situações em que, após a conclusão das obras, ainda se continua bombeando a água do subsolo, tornando-se parte integrante do sistema de drenagem dos subsolos dos edifícios.
O que se deseja esclarecer com estes últimos parágrafos é que estas circunstâncias devem ser consideradas no projeto de rebaixamento do lençol freático, raras vezes efetuado pelos responsáveis. A quantidade de água retirada do subsolo e não reposta pelo homem ou pela natureza (infiltração das águas de chuvas) criará um déficit hídrico deprimindo o lençol freático, com conseqüentemente aumento da predisposição para o efeito de recalques.
Poder-se-ia continuar este artigo expondo e ou esclarecendo nossa opinião de como colocar em prática uma solução sobre problema em tela. Entretanto, o objetivo deste artigo é abrir uma porta para uma discussão mais seria de como implementar os conhecimentos de engenharia geotécnica de modo a servir melhor a sociedade, não a transtornando ainda mais com situações que de, certo modo, são sobejamente conhecidas e não aplicadas por falha de que se pode denominar de sociopatologia.
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Comentários dos leitores:|
Nossos leitores já fizeram 1 comentário sobre este artigo: De: Alfredo Bernacchi (em 2007-10-19 12:26:39) Precaução incógnita. Tenho um terreno em Itaipuaçu, cujo solo é arenoso com camadas de turfa e lençol freático alto. 0,70 a 1,00m pretendo construir uma casa de 2 pvts. + sótão habitável e pretendia fazer o reb. do lençol através de um dreno PERMANENTE, tipo espinha de peixe, de uns 1,50m lado do vizinho, chegando com 2,00m junto a um canal existente do outro lado da rua. Com a leitura do seu artigo, fiquei preocupado, porque nos fundos do meu terrano 16 x 30, existe uma construção de 3 pvts. afastada 1,50m do muro divisório. Pela geografia local, esse lençol estará sempre se mantendo, pelo próprio nível do canal (-2,00) e a proximidade do mar. O mesmo deverá se estabilizar um pouco acima do meu dreno: 1,5m próximo ao vizinho e 2,00m no canal. As sapatas da casa vizinha estão em torno de -2,00m prof. O que você acha sobre os riscos que incidirão sobre a casa do meu vizinho? abraços Obrigado Alfredo
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